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Sexta-feira, 26 de Janeiro de 2007

A Questão do Aborto

A delicadeza e a complexidade da questão.

Creio que ninguém contesta que é delicada e complexa a questão do aborto.

E quanto mais delicada e complexa é uma questão, mais se impõe singela e claramente enunciá-la. A não ser assim, à dita complexidade junta-se a confusão de quem a quer interpretar e nela intervir.

A não ser assim, sobre aquela delicadeza, é a brutalidade que se impõe.

A delicadeza

Porque é delicada?

É delicada porque envolve a vida. A vida da gestante. A vida em gestação. E a vida da comunidade de que a vida em gestação e a vida da gestante comparticipam. E a vida, para a vida, é sempre a grande questão. Mas um traço indissociável da vida é a morte. A vida prossegue com a morte aprazada de cada individual manifestação vital. E porquê? Porque, pela própria natureza da vida, cada segundo, cada minuto, cada hora, cada dia, cada semana, cada ano que se vive é diferente de todo o outro, é sempre novo e nunca repetido, impondo assim permanentemente à continuidade a adequação. Ora o que é mais fácil: é arranjar o carro que começa a ter peças somam e seguem com cada vez mais imprevistas avarias, ou é adquirir outro novo e desmantelar o velho que está a levantar tantos problemas e a exigir tanta despesa, ou, uma outra forma de dizer, tanta energia? Também a vida evoluiu sempre num sentido de eficácia. A singularidade da vida é garantida pela dupla possibilidade de cada singular vivente vir diferente do que lhe deu origem, optimizando resposta às sempre novas circunstâncias, por um lado, e garantindo por outro a reciclagem, obstando perdas impossíveis de energia. Mas o que é interessante é que apesar disto ser assim quem vive faz por não morrer. Cada gesto, acto, realização, relevante, parece querer-se eterno. E vai virtualmente sendo-o contra tudo e contra todos que resistem à salvaguarda e ao modelar do discurso, como de outra forma já admiravelmente o disse Camões ao referir os que pelos feitos de memória em memória se vão "da lei da morte libertando".

A complexidade

Porque é complexa?

É complexa exactamente como atrás se infere porque envolve indivíduos e recursos, saberes e ignorâncias, crenças, interesses, nexos, circunstâncias, envolve hábitos e preconceitos, envolve perigos, facilidades, dependências, seguranças e medos, envolve liberdade e assunção, luta e sobrevivência.

Duas caras, duas máscaras

As máscaras e as caras do SIM e do NÃO.

Tal como haveríamos de ver o NÃO, por incrível que a muitos isso possa parecer, tomar corpo num referendo sobre a resolução da desonra da exploração do homem pelo homem, argumentando os seus defensores, com sólidos argumentos, o colapso da economia e o afundar da civilização que a irreflectida e perigosa opção de acabar com tal prática iria trazer e o decorrente enorme mal que daí advinha para as populações obrigadas a tal desmando, também nesta questão do aborto a máscara do NÃO põe a opa inquisitorial por cima do apreço pela vida que proclama. Não correm agora os frades de crucifixo em punho a arrastar os incautos e os assassinos para o assalto ou para o massacre dos que não professam a mesma crença ou opinam diferente. Mas fazem vigílias e rezas, abaixo-assinados, multiplicam comissões, para à conta do direito à vida insinuarem renovados autos de castigo. Não já autos de fé como outrora se fizeram nas praças do reino queimando em enormes fogueiras quem chamavam bruxas ou feiticeiras, relapsos e hereges. O fogo hoje é o do negócio sustentado pelo desespero das acossadas e dos acossados pela lei do mais forte, é o fogo do negócio de quem das dificuldades dos outros tem ganha-pão ou ganha jóias. É o fogo do banco dos réus com que são intimidados os que se intimidam e os que não se intimidam, e afrontam e sofrem acusações iníquas ou cruéis. E é a própria chamada Igreja de Cristo que, ao invés de se guardar nos princípios de liberdade que o amor chancela, se apresta e fomenta a atirar a pedra - e mais do que para o que pecou a raiva maior parece concentra sobre aquele que recusa apedrejar. É que uma coisa é a desejada, legítima, generosa, elevada, corajosa, dádiva pela vida dos que rejeitam praticar a interrupção de uma gestação em curso fruto da partilha íntima de um homem e de uma mulher, assumindo zelosamente a maternidade e a paternidade, e outra completam entre diferente é a perseguição, a humilhação, a intimidação, a morte acossada com o selo da ignomínia em nada diferente do direito islâmico do marido matar à pedrada a mulher "adúltera" na rua. O ínvio, o abjecto, a subtil subversão que o NÃO vela é exactamente ao fazer de uma causa elevada e íntegra a favor da vida uma cruzada persecutória aos que foram lançados ou se lançaram no deserto dos seus recursos.

Tal como a rapina a situar a presa no terreno da captura, por trás da máscara do SIM espera-se o abrir-se a brecha no acima referido chamado obscurantismo, pré-capitalista para a oportunidade capitalista da multiplicação do negócio contado pelo número de abortos que aproximadamente se sabe de antemão ocorrer no país, mais, como a todo o bom negócio que se preze, a desejada expansão!

E, tal como após a apropriação dos bens conventuais pelo estado liberal vitorioso, ainda havemos de ver (já estamos aliás a ver) a Igreja que agora diz raios e coriscos do "atentado à vida" abençoar os que lhes garantem a côngrua com tal negócio.

O direito à vida constitucionalmente enunciado para todo o território do país não deve permitir cortar ao meio o corpo do filho reclamado na célebre sentença de Salomão.

À mulher na sociedade de hoje não foi ainda conferida na diferença a plena igualdade de direitos e de deveres. Não é a ameaça ou o chicote que a emancipa. Nem a subserviência, seja ao homem, seja ao que for. A segurança e a igualdade na diferença não se garante pela adulação ou pela intimidação, mas pela efectiva e completa paridade e confiança.

A minoria de mulheres, ou porque vazadas de carácter e de fortuna, ou porque profundamente discrédulas e isoladas socialmente, ou que por qualquer outra razão recusam desesperada ou decididamente a maternidade, devem ter o acompanhamento médico e de enfermagem que evitem tanto quanto possível a duplicação da morte ou a multiplicação de amputações e malformações pessoais.

À maioria restante, o estado de quem trabalha e de quem vence o estigma da milenar exploração do homem pelo homem, o estado que se desenha mas se não impôs, forte, ainda, esse estado praticamente tão mais profundamente virtual quanto decisiva e decididamente eficaz, proclama segura e confiadamente a emergência das novas gerações como essencial à continuidade da vida e ao, multiplicado em série de esboços, salto qualitativo civilizacional a que tanto se aspira.

Não crucifiquemos

E não é pelo facto do Primeiro-Ministro Sócrates mimar agora o gesto de Pilatos que muda o carácter de quem tem carácter. Mas o público lavar de mãos do Primeiro-Ministro é preciso a todo o custo que não tenha o efeito do ludíbrio que alguns pretendem, nem muito menos a menos que cinda o corpo social à volta de uma tão falaciosa e falsa cisão.

Façamos tudo todos para não nos intimidarmos com o NÃO e o SIM de cada um, e de um processo eivado de ambiguidades e rasteiras, saíamos reforçados quer do ponto de vista de um reforçado sentido democrático de clarificação de ideias e de opções, quer no que respeita à necessária organização de quem não pode deixar de tomar a peito o direito de cidadania que se proclama universal mas alguns parece teimam só a eleitos pertencer.

Publicado Por prospectar-perspectivar às 17:34
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A Propósito do Plenário Sindical no Coliseu Micaelense

 

Um professor, que mais não seja por tarimba profissional e dever de ofício, tem de saber traçar, com os dados que lhe são acessíveis, um retrato, o chamado diagnóstico, daquele ou daqueles com quem trabalha, para assim nortear o concreto da sua acção.

Não só com os alunos temos trato profissional. Estamos, aliás, e com uma premência que vai ganhando particular relevância, a ter de tratar com superior clareza com o titular da pasta da Educação na Região Autónoma dos Açores. Temos por isso não só obrigação como a imprescindibilidade de lhe fazer o diagnóstico, de enunciar, nem que seja num tosco, com a informação de que se dispõe, os traços mais marcantes para uma mais profícua mútua relação. Da minha parte tenho sempre procurado não equivocar. O Dr. Álamo de Menezes, Secretário Regional da Educação e Cultura, nosso colega, como se considerou a si próprio no penúltimo Plenário Sindical no Coliseu Micaelense, ao qual por troca de datas não tive a oportunidade de comparecer, tem uma visão férrea das suas funções administrativas e um supino desprezo pelas amenidades daqueles a quem considerou seus pares. O que podia ser muito bom, se a matriz política que o anima fosse de natureza menos dúplice. É que há ética com verniz muito fácil de estalar e onde a responsabilidade se casou com a corrupção e a arbitrariedade. A ver vamos. Se lobo, e a pata branca subterfúgio para atingir os objectivos que pretende. Se Mouron Rouge fleugmático e distante a esconder a generosidade dos seus actos para levar até ao fim com êxito a elevada e arriscada missão no seio do inimigo. Se fascista encoberto de democrata para ludibriar e trair aqueles de quem circunstancialmente obteve votos e a função que exerce. Se democrata convicto de que há que gastar os sapatos de ferro nas agruras dos ásperos caminhos. Se os dentes afiados caninos são mera máscara para vitórias conjuntas ou se afiados para devorar a presa sendo o riso afável mera máscara pudibunda. Se como aqueles peixes que ora são fêmea ora são macho, ora nem macho nem fêmea em assexuada multiplicação pacífica. Se numa de corda bamba política, se numa de esticar forte a corda.

O facto é que de lebre passou aparentemente à cauda do pelotão da governação "socialista". Do impossível diálogo ao diálogo. Da liminar intransigência autocrática à partilhada audição. Honra seja feita à resistência dos colegas do ou dos sindicatos, e falo dos que conheço, o colega Armando Dutra e as colegas Graça Menezes e Clara Torres que se têm permitido oferecer para tão paciente confronto, num notável esforço de estabelecer pontes entre margens assaz movediças.

É que o "Estatuto Regional" tem dois rostos. O rosto do recuo do Governo Regional para consolidar forças para um contra ataque mais eficaz na efectiva proletarização dos professores como produtores directos de mais valias para gáudio de alguns tantos próceres e o rosto do abraço a uma causa fazendo recuar tal tentativa a favor de uma ordem produtiva e distributiva consentânea com as aspirações e recursos de hoje em dia. O rosto de uma vitória dos professores como parte activa no desenho duma sociedade animosa, ilustrada e justa a galvanizar os nossos colegas no continente para juntos todos vencermos os desafios que se nos colocam pela frente enquanto povo, e o rosto de um colectivo cindido mais pronto para a derrota a possibilitar o saque pelo inimigo. O futuro o dirá, como se costuma dizer. Na certeza porém que esse futuro será de uma ou de outra forma conforme a orientação que dermos à nossa acção, conforme as opções que abraçarmos, conforme a clareza, enfim, com que tudo se nos desenhe a iluminar-nos os passos.

Publicado Por prospectar-perspectivar às 17:29
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Votação no dia 24/01 de 2007 do Projecto de Relatório de Kyosti Virrankoski sobre biotecnologia.

 

Exmos. Srs. Euro deputados Duarte Freitas e Capoulas Santos

 

A biotecnologia da descoberta e da libertação, a biotecnologia da satisfação, a biotecnologia da interacção, a biotecnologia da vida, só no domínio do método tem a ver com a biotecnologia da morte e da exploração.

No actual contexto qualquer permissão ou apoio à produção e à comercialização de produtos agrícolas transgénicos é um perigo a não subestimar por aqueles dirigentes que queiram estar atentos à vida na nave espacial terra - para usar a significativa expressão com que Buckminster Fuller se referiu ao nosso planeta.

Além de ser grotesco, como o faz o relatório, confundir ou reduzir a biotecnologia ao negócio dos organismos geneticamente modificados, é aberrante e grave usar a biotecnologia como máscara de circunstância para fazer passar impunes práticas criminosas de morte e de exploração.

É preciso ter a noção da leviandade, da violência e da gravidade das consequências que advêm do tomar-se como inócuo o que contamina, como indiscutível o que com cada vez maior premência se impõe discutir, como resolúvel o que equivoca e agrava o problema.

No actual cenário económico aceder à gravata por aquela via é ter em troca cada vez mais nada no corpo nu; querer roupa por aquela via é pôr a farda da força-aéria contaminando milhares de milhares de hectares no território do Vietname a sofrer ainda o enorme desastre ecológico do "agente laranja"; pôr achas por aquela causa é atear o fogo que nos consome para que nos consumam; no actual cenário global tal cenário económico agrava a dependência dos produtores e agrava a qualidade de vida das massas tão mais distante do nível de vida de uns tantos títeres quanto mais com o freio nos dentes os que usam e abusam do seu próximo.

Porque já fazemos naves espaciais vamos destruir a nossa nave-mãe? À conta da rarefacção das pequenas estações com que prospectamos o universo extra-terrestre, vamos rarefazer aquela onde nos formámos? Ao recusarmos a biodiversidade original não nos estaremos a recusar também?

Uma economia de escala tão redutora como aquela que carimba o actual negócio dos transgénicos, um maneio tão indiferente e até mesmo tão danoso à natureza do contexto onde acontece, em suma, uma teoria e uma prática tão assumidamente simplistas, agressivas e unilaterais, não passam disso, pelo que peço toda a Vossa atenção para tal facto e o liminar repúdio do Projecto de Relatório de Kyosti Virrankoski em nome do país que no Parlamento Europeu sois corpo.

Publicado Por prospectar-perspectivar às 17:22
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