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Quinta-feira, 7 de Junho de 2007

" E dizemos uma flor foi colhida de nosso jardim! "

Inércia? Inércia não: luta!


Na primeira noite, eles se aproximam
e colhem uma flor de nosso jardim.
E não dizemos nada.

Na segunda noite, já não se escondem,
pisam as flores, matam nosso cão.
E não dizemos nada.

Até que um dia, o mais frágil deles, entra
sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua,
e, conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.

E porque não dissemos nada,
já não podemos dizer nada.



Maiakovski (Georgia,1893 – Moscovo,1930)

 



E, parece, mais fácil cantar:


“Não há salvadores supremos!

Nem Deus, nem César, nem senhores!”.

Mais difícil é, pelos vistos, fazer face à vida sem pautar tudo pelo olhar do patrão, pelo rito do senhor, pelo louvor a César, e pelo óbulo a Deus.

 


Mais difícil, pelos vistos, é não ver como deuses, como senhores, como salvadores supremos, os mais destacados materialistas dialécticos, subvertendo tempos, lugares, actores,   circunstâncias.
Honra seja feita a quem afronta os equívocos e as tentativas de equívoco, singela e firmemente, pela defesa da inequívoca morada singular do pensamento.

Cada um, quer o queira ou não queira assumir, arrasta o pensamento consigo em função do exercício do conhecimento que adquire e dos interesses de classe que com maior ou menor visibilidade se lhe impregnam no quotidiano da sua acção. Mesmo quando se cola ao pensamento do outro ou se apropria do pensamento do outro é porque o pensamento do outro é o pensamento que o próprio pensa mais conveniente pensar como seu.
Ora, o que responde à pergunta e explica o desabafo (“Incrível” e “até quando?”) contidos na série de poemas transcritos cujo sentido inicial foi sendo abraçado em tempos e por autores diferentes (Maiakovski, Bertold Brecht, Martin Niemoller, Cláudio Humberto)?
O que responde à pergunta e explica o desabafo é a desatenção dos trabalhadores em geral e dos comunistas em particular para o que foi o século XX no desbravar dos traços e dos nexos duma teoria abrangente dos fenómenos conforme o materialismo dialéctico genericamente tipificado e no domínio económico particularizado na segunda metade do século XIX – primeira metade do século XX.

E refiro especialmente a teoria quântica, a teoria da relatividade e a teoria do(s) discurso(s) ou da(s) linguagem(ns) por uns chamada de semiologia e por outros de semiótica.
Tal como a palavra, só tem sentido se lhe derem sentido. É uma convenção com eficácia só enquanto aquela lhe for conferida.

Estamos a viver o fim do que corresponde ao princípio exposto há dois mil anos: se numa dada altura o homem se julgou fruto do verbo que criara, maravilhado pelo poder da palavra, hoje muitos ainda, apesar de produtores, ainda do dinheiro se fazem produto.
O dinheiro, tal como a palavra é um instrumento de interacção. Do ponto de vista da natureza convencional em nada se distinguem a palavra e o dinheiro. Mas do ponto de vista da substância as diferenças entre o dinheiro e a palavra são notórias e importantes.
Enquanto a palavra ganha ou perde substância conforme a aferição que se lhe faz ao confrontar-se a matéria significante com o universo de referentes no sujeito ou sujeitos em causa, o dinheiro perde ou ganha substância consoante os recursos em bens, sejam eles efectivos ou potenciais como quando é o caso da força disponível de trabalho.
O dinheiro, tal como a palavra, é objecto de controlo severo (operativo e gramatical). Controlo por um lado fundamental para que a convenção tenha sentido, e portanto substância, o que explica a aceitação do mesmo pela massa que assume a convenção. Mas por outro lado controlo oportunista para aqueles que, valendo-se da referida primeira premência, dele se valem para o maior e se possível o mais estrito proveito próprio.

É assim visivelmente com o dinheiro.

Mas se virmos com atenção também é assim com a palavra.

Veja-se só a troça que recai logo sobre o operário que usa de recursos vocabulares mais eruditos ou o expresso desagrado quando o erudito recorre à linguagem popular.
Este estabelecer de campos diferenciados de normalidade entre explorados e exploradores é que está na origem do drama que vivemos, estabelecimento, aliás, em clara ruptura interna e colapso estrutural, pois a destruição de todo o pré-estabelecido para a acumulação capitalista poder continuar a acontecer arrasta consigo a destruição de pessoas e bens numa escala cuja dimensão as brutais guerras em curso são meros esboços preparatórios num horizonte surpreendentemente marcado pela memória de duas ainda recentes grandes guerras mundiais.
Está bem na ordem do dia a afirmação de Mao-Tsé-Tung “ou a revolução impede a guerra ou a guerra desencadeia a revolução”, não sendo por acaso a primeira grande guerra contemporânea da revolução russa e a segunda grande guerra irmã no tempo com a revolução chinesa.
Saibamos fazer a revolução e não a guerra, e na guerra saibamos fazer a revolução.
Revolução que toma hoje rosto antes de mais no campo cultural, isto é, no campo da enunciação, dos vários sistemas de enunciação. E falar-se em enunciação é falar-se em comunicação. E falar-se em comunicação é falar-se em emissor e receptor! E emissor e receptor pressupõe um e outro e não um ou outro!

 

Na primeira noite, eles se aproximam e colhem uma flor de nosso jardim.
E dizemos uma flor foi colhida de nosso jardim!


Publicado Por prospectar-perspectivar às 08:41
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1 comentário:
De José Rodrigues a 30 de Dezembro de 2009 às 00:27
Olá,

na verdade a poesia que você cita no inicio de seu post nao é de Maiakovski , mas sim do poeta brasileiro Eduardo Alves da Costa. Segue seu poema completo:

NO CAMINHO COM MAIAKÓVSKI


Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na Segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne a aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita - MENTIRA!


um abraço,

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